quinta-feira, dezembro 02, 2021

Os europeus são muito mais tribais

Excitado com o lançamento dum empreendimento que pode vir a fazer de Gaza a Singapura de Moçambique, fui consultar o Plano de Desenvolvimento Estratégico de Gaza para 2018-2027. Segundo ele, “em 2027, Gaza será uma província próspera e sustentável, livre da pobreza extrema e da fome”. A visão estratégica é de “promover os recursos endógenos de Gaza através da transformação da cadeia de valor agrária”. O plano foi elaborado por alguns daqueles que nos ajudam a morrer, portanto, os nossos “parceiros de cooperação” (PNUD, cooperação belga, sueca, etc.). É um documento arrepiante pelos seus lugares-comum e que nos países donde veio o dinheiro para a sua elaboração seria rasgado aos pedacinhos.

Mas esse é outro assunto.

O que reparei nesse documento é que não se faz nenhuma menção ao aeroporto. Os tais 60 milhões que esta infra-estrutura custou são muitos para uma província como aquela. Tanta infusão de “mola” tinha que ter sido considerada na elaboração dum plano estratégico. Teriam escrito, “em 2021, as crianças de Gaza vão gritar de alegria por ver um avião a pousar em Chongoene, os seus pais estarão livres da pobreza extrema e da fome”. Mas nada. No prefácio, a Governadora, na altura, Stella da Graça Magalhães Pinto Novo Zeca, saúda em primeiro lugar o Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi, pela sua visão e sábia liderança do País e do nosso povo, por tudo quanto foi alcançado e pela transformação do plano num instrumento de desenvolvimento. Já está explicado porque esta infra-estrutura tem que ter o seu nome.

Só que não.

O hábito dos tempos gloriosos de dar nomes dos Presidentes a infra-estruturas nunca foi bom e eu já me pronunciei várias vezes sobre isto. Entra em choque com o espírito democrático e, pior, colide com a necessidade de fazer da deliberação no seio da governação um instrumento eficaz. Numa altura em que decorre um julgamento onde bôdes expiatórios são sacrificados para proteger a cultura das “orientações superiores”, tresanda inaugurar um aeroporto cuja viabilidade económica é altamente duvidosa com o nome do Presidente da República. Isso significa, no mínimo, que o Presidente continua rodeado de pessoas que estão mais preocupadas em o agradar do que em trabalhar em boa consciência para o bem da comunidade. Eu acredito que a ideia não foi dele, mas o facto de ele não a ter rejeitado diz tudo sobre a sua perplexidade e sobre porque com ele este País está entregue.

Agora, há uma maneira de evitar o debate sobre a racionalidade deste empreendimento e sobre a qualidade da nossa liderança.

É transformar o assunto numa questão tribal. É dizer que quem não gosta do nome atribuído ao aeroporto é porque é do Sul e não quer que se faça na sua região aquilo que eles andaram a fazer noutras regiões. Eu não gosto do nome por várias razões, mas nenhuma tem a ver com o facto de o Presidente ser de Cabo Delgado. Há anos estive contra a ideia de se rebaptizar o aeroporto de Mavalane para Samora Machel, e não foi por ele ser de Chilembene, e eu de Xai-Xai. A ideia de que a origem duma pessoa deve constituir razão para não se pronunciar sobre o que a incomoda revela muitos dos problemas de falta de imaginação que cada vez mais caracterizam a Frelimo. Quando a única mensagem política é “Unidade Nacional”, fica mais do que evidente que um partido está com dificuldades em gerir a sua própria diversidade.

Mas o argumento tribal é mau por outras razões.

Primeiro, não há comparação possível entre Mondlane, Machel, Chissano e Guebuza, por um lado, e Nyusi, por outro. E não é porque uns são do Sul e o outro é de Cabo Delgado. Haveria comparação entre os primeiros e Chipande, Pachinuapa, etc. Fazem parte duma geração de ouro (mesmo com as devidas reticências), cuja vida e obra se confunde com o devir deste País. Atribuir os seus nomes a infra-estruturas (ainda que, por uma questão de princípio, eu esteja contra) não me parece tão grave quanto fazer o mesmo com um Presidente de outra geração. Ele simplesmente não tem o peso histórico que os outros têm. E devia ser do seu interesse proteger-se do ridículo procurando introduzir outras maneiras de fazer as coisas, algo que ele tem grandes dificuldades em fazer e, infelizmente, não parece ter o devido apoio.

Segundo, achar que quem é de Gaza e se opõe é porque não gosta do Norte é simplesmente fantástico.

Nas últimas eleições, Gaza deu 94% do seu voto a Nyusi, contra 75% da sua província natal. O pessoal de Cabo Delgado que não votou em Nyusi é tribalista também? Em Gaza, ele teve melhor desempenho do que o seu próprio partido, mas mesmo aí, a Frelimo em Gaza teve mais 20% do que obteve em Cabo Delgado. Não interessa, por enquanto, se alguém andou a encher as urnas. O que interessa é que se as pessoas de Gaza tivessem um problema tribal, nunca teriam votado em massa por alguém de fora da sua província. Até correram com os adversários à paulada em cenas vergonhosas de perseguição de pessoas de Gaza que aderiram a outros partidos.

Terceiro, o argumento tribal é típico da nossa colonização mental.

Os europeus meteram na nossa cabeça que é um problema sentir obrigações morais por quem nos é mais próximo. Pegam nisso para explicar porque andamos aos murros uns com os outros. Eles próprios são muito mais tribais do que nós. Quando fecham as fronteiras para protegerem os seus dos vírus que eles acham que nós estamos a transportar, eles estão a mostrar que sentem obrigações morais mais fortes pelos que lhes são próximos. Como estrangeiro aqui na Europa, para eu ter emprego é preciso que quem me emprega mostre que não existe candidato nacional ou europeu melhor qualificado do que eu. É tribalismo isso. Mas lá em África, andamos aí com a cabeça cheia da ideia de que é mau ser tribalista.

Pois bem, não é. 

Precisamos duma outra abordagem deste assunto para que a nossa própria perplexidade não seja a razão de conflitos “tribais”. Há uma distinção feita pelo filósofo David Miller que me parece útil. Ele distingue entre uma moral negativa e outra positiva. A negativa é a que me impede de fazer o mal a quem não pertence à minha malta. O importante aí é o respeito pela dignidade humana dum modo geral. Como pessoa do Sul não devo andar nas ruas de Maputo a insultar gente do Norte, nem mesmo recusar alugar casa a alguém por não ser do Sul. A moral positiva é que me obriga a respeitar as minhas obrigações para com os membros da minha família, da minha terra, da minha região, da minha igreja, do meu clube de futebol, do meu partido, da minha profissão, etc. A moral positiva é que forma comunidade. O importante não é, portanto, combatê-la, mas sim criar condições para que ela evolua dentro da observação da moral negativa. Esta, na verdade, serve sempre como um correctivo.

Há gente em Moz que é do mesmo partido, da mesma igreja, do Real Madrid, fã de Cristiano Ronaldo, do Benfica, bebe junta, trai junta, rouba do erário público junta, odeia os homossexuais com os mesmos níveis de obsessão, detesta a Frelimo, a Renamo ou o MDM, tem sempre algum problema com os Tugas, etc., mas acha que ser do Sul, Norte ou Centro é um defeito de carácter. Parece-me infantil e, até certo ponto, imbecil.

Mas conforme dizia mais acima, onde não há cultura de debate – e a Frelimo é cada vez mais o exemplo disso – haverá sempre gente apostada em encontrar razões para impedir que as pessoas façam interpelações críticas. O argumento tribal, fruto da nossa colonização mental, continua a ser um dos maiores. E funciona com os menos seguros de si próprios que vão calar o bico para não serem acusados de tribalismo. 

Comigo não funciona.

O nosso País está a ser mal governado. Não é porque o líder seja do Norte. É porque ele revelou não reunir as qualidades necessárias. Não duvido que haja gente de Cabo Delgado mais capaz do que ele. Mas mesmo essas pessoas, sem a ajuda do seu partido, nunca conseguiriam suprir eventuais lacunas. A prova das insuficiências deste é deixar que quem o devia aconselhar melhor atribua o seu nome a um empreendimento de racionalidade económica duvidosa. Uma pessoa que no seu discurso inaugural anunciou que o povo era o seu patrão devia se sentir mal rodeado de pessoas que procuram mostrar que ele não estava a ser sério quando disse isso.

Se fosse coerente, teria recusado e sugerido que o aeroporto se chamasse “Povo”. Pelo menos isso.

N.b. Fiz duas correções. Tinha esquecido de incluir "Machel" na lista dos ilustres e corrigi a data do Plano. (Prof. Elísio Macamo in facebook)

terça-feira, novembro 23, 2021

FeiKian, o dinheiro voador

As autoridades fiscais da Namíbia fizeram uma descoberta chocante em 2017. Milhares de dólares estavam a sair do país para a China, mas apenas uma fracção era tributada.  O esquema foi descoberto quando o comerciante chinês Jack Huang foi preso sob acusações de fraude fiscal, e as autoridades descobriram que ele fazia parte de algo muito maior. Entre 2013 e 2016, Huang, que operava uma empresa de desalfandegamento, tinha importado bens com um valor declarado de 14,3 milhões de dólares. O verdadeiro valor dos bens era mais de 10 vezes maior. Durante o mesmo período, ele enviou 209 milhões de dólares para China para pagar pelos bens.

A fraude impediu que milhões em impostos entrassem nos cofres do governo da Namíbia. 

Quando as autoridades investigaram mais a fundo, descobriram que o sistema envolvia a subnotificação do valor dos contentores de envio e dos bens transportados pelo mundo, sem deixar rastos em formato de papel. Isso fazia parte de um sistema conhecido como feiqian, ou “dinheiro voador,” que, durante séculos, ajudou a esconder o movimento de itens como minérios, partes de animais selvagens e madeira.

A Namíbia acolhe mais de 7.000 comerciantes chineses e outros comerciantes estrangeiros que trabalham na base do auto-emprego e tem dificuldades para monitorar a actividade comercial e fazer cumprir as suas leis financeiras. O âmbito da fraude levou a que um exasperado Inspector-Geral da Namíbia, Sebastian Ndeitunga, declarasse que “não haverá misericórdia” e “não deixaremos nada impune.” 

Mas o feiqian é difícil de policiar. O jornalista namibiano, John Grobler, passou um ano a investigar este fenómeno e descobriu que rastrear o dinheiro é como perseguir um fantasma. O segredo é que a maior parte da moeda nunca sai da China — apenas as mercadorias são trocadas.  “É um sistema de comércio invisível e sem impostos que deu às empresas chinesas uma vantagem no sector da construção em África, o rendimento que não pode ser rastreado utilizado para apresentar propostas mais baixas que os competidores locais e ‘molhar a mão’ para ganhar contratos,” escreveu Grobler para a organização de jornalismo ambiental, Oxpeckers.

Como o Esquema Funciona

O feiqian começou há mais de 1.200 anos na dinastia Tang, da China. Na sua essência, é um sistema de pagamento baseado na confiança e nos relacionamentos.  Grobler disse que é semelhante ao sistema de remessa, conhecido como hawala, utilizado na maior parte do mundo islâmico. Neste sistema, as pessoas que vivem fora enviam dinheiro de volta para a sua terra natal através de um agente de confiança que entrega o dinheiro em troca de uma taxa.  O feiqian utiliza o mesmo tipo de pagamentos baseado na confiança e sem registo, mas que podem ser muito mais complexos. No sistema feiqian, os bens são importados com a ajuda de um despachante chinês e declarados numa fracção pequena do seu verdadeiro valor. Estas mercadorias, que, muitas vezes, são materiais de construção, são posteriormente vendidas para gerar moeda. A moeda é utilizada para comprar bens ilícitos como partes de animais selvagens ou madeira ilegal. Aqueles bens são secretamente enviados de volta para China e o despachante é reembolsado, recebendo estas mercadorias ilícitas de grande valor.

O marfim e outro contrabando encontram-se entre as mercadorias ilícitas exportadas num sistema conhecido como feiqian, que evita o pagamento de impostos e esconde os carregamentos dos produtos contrabandeados. REUTERS

É uma rota de comércio circular que não tem necessidade de bancos ou instituições tradicionais. “É como defraudar sistematicamente as autoridades em ambos os lados do lago,” Grobler disse à ADF. “Como é algo baseado no comércio, eles podem manipular os números e nenhuma destas acções decorre através de canais convencionais. … É apenas entre um comerciante local e o seu fornecedor na China. Não é possível ver; não é visível em nenhum lugar.”

Grobler disse que os proprietários de lojas chineses e os comerciantes da Namíbia quase todos operam num sistema de “apenas dinheiro vivo.” Eles não produzem facturas nem oferecem recibos aos clientes. Isso faz com que seja extremamente difícil para as autoridades locais exigirem o cumprimento das políticas fiscais. 

Depois da prisão de Huang, o Ministro das Finanças da Namíbia, Calle Schlettwein, prometeu que iria acabar com esta prática. Ele insistiu que os estrangeiros não devem ser capazes de contornar as leis nacionais através de empresas “fantasma” e jogos de engano. “O nosso sistema não está baseado na nacionalidade mas sim na fonte do rendimento,” disse Schlettwein. “Todo o rendimento recebido ou considerado como tendo sido originado de uma fonte namibiana é tributado na Namíbia.” 

Perfeito para Mercadorias Ilícitas

Para o feiqian funcionar, as mercadorias enviadas de volta para China devem ser valiosas, que não se podem rastrear e possíveis de dividir em pequenas unidades. Alguns dos itens preferidos são marfim, chifres de rinoceronte, pau-rosa, pedras preciosas e plantas suculentas. A chave é que as mercadorias podem ser espalhadas pelo mercado negro para servirem de pagamento a várias pessoas.  “O que faz com que esta forma de feiqian seja tão adequada para o contrabando é que o produto — contrabandeado — é fungível,” escreveu Grobler. “Cada quilograma de chifre de rinoceronte, marfim, abalone e barbatana de tubarão ou touros de madeira pode ser dividido em partes menores, que são mais fáceis de comercializar.”

Um exemplo vívido de feiqian é o comércio ilícito multimilionário de abalone na África do Sul. Este caracol do mar é considerado uma iguaria e procurado pelos restaurantes chineses pelo seu sabor amanteigado. Para poder satisfazer a esta procura, uma cadeia ilícita de fornecimento de abalone foi desenvolvida, envolvendo o envio de materiais através de empresas “fantasma” da África do Sul e transformando aquele material em numerário, que é utilizado para pagar os mergulhadores, para colherem o abalone, e os contrabandistas, para transportá-lo. 

Muitos destes operadores locais recebem pagamentos em drogas ilícitas ou em produtos químicos para fazer drogas. De acordo com a organização não-governamental TRAFFIC, 96 milhões de conchas de abalone foram colhidas de forma ilegal das águas da África do Sul durante 10 anos, até ao ano de 2016. O comércio, que, muitas vezes, é gerido por sindicatos do crime organizado chineses, alimenta a violência e os vícios pelas drogas nas cidades da África do Sul. Kimon de Greef, jornalista investigativo sul-africano, disse que o comércio de abalone tinha crescido para se tornar numa “economia imensa, paralela, subterrânea, multimilionária e criminalizada do rand” em que os pobres das comunidades de pescadores são obrigados a trabalhar. 

Será que se Pode Acabar com Esta Prática? 

Para os países com recursos limitados, rastrear e acabar com os crimes financeiros é um desafio. O Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC) estimou que os países africanos perdem 88,6 bilhões de dólares anualmente devido à evasão de capitais. Aquele total é quase o mesmo que todo o dinheiro das ajudas financeiras e do investimento estrangeiro directo de todo o continente. Acabar com este fluxo ilícito seria um enorme benefício económico para os países e os ajudaria a proteger os recursos naturais de capital importância. 

“É necessário que todos os países, os nossos parceiros em África assim como os países de trânsito e de destino se juntem a esta luta,” disse Ghada Fathi Waly, directora-executiva do UNODC. 

O UNODC está a trabalhar com 17 países africanos para desenvolver uma rede de recuperação de activos, que os ajudará a capturar dinheiro contrabandeado, combater o crime organizado e parar com a lavagem de dinheiro utilizado para financiar o crime e o terrorismo. A rede permite que os membros troquem informação e aprendam sobre a legislação eficaz para combater estes crimes. 

“Fluxos financeiros ilícitos estão a drenar os rendimentos vitais de África, a colocar em perigo a estabilidade e a impedir o progresso para um desenvolvimento sustentável,” disse Waly.  Num relatório de 2020, a Agência de Investigação Ambiental (EIA) descobriu que muitos países não investigam nem processam o tráfico de produtos da fauna bravia como um crime financeiro. Os traficantes são punidos nos termos da lei de protecção da fauna bravia embora as leis de branqueamento de capitais tenham penas mais severas. Quando os países não possuem a capacidade de seguir o dinheiro, os chefes dos sindicatos escapam da condenação e podem continuar com os seus crimes. “Quando alguém é preso, geralmente se trata de um transportador de baixa categoria,” comunicou a EIA. “Uma apreensão de múltiplas toneladas, que, se for investigada a partir de uma perspectiva financeira pode produzir provas e ideias importantes, torna-se meramente uma despesa de negócios para os traficantes envolvidos.”

Por sua vez, a Namíbia acredita que deu grandes passos contra o tráfico ilegal. Depois de uma proibição de exportação de madeira, o país reautorizou a exportação de pau-rosa e outras madeiras em 2020, mediante orientações rigorosas. O país também modernizou os seus programas das alfândegas, acrescentando mais scanners e tecnologia para rastrear e inspeccionar os contentores que chegam ao Porto de Walvis Bay. Os funcionários das alfândegas passaram por formação para identificar o contrabando de produtos provenientes da fauna bravia. Entretanto, ainda continua a ser um mistério como os traficantes se irão adaptar e tentar evitar estas restrições.  “É tão difícil investigar algo que, a princípio, devia ser invisível,” disse Grobler.  

Sinais de Alerta

Maior consciência dos sinais de alerta ou sinais vermelhos associadas ao tráfico internacional de produtos provenientes da fauna bravia pode ajudar os países a fazerem cumprir as suas leis. 

Alguns destes sinais de alerta são: 

Empresas “fantasma”: Estas, muitas vezes, são empresas de comércio, criadas por pessoas de nacionalidade estrangeira e registadas com endereços residenciais.

Exportações de mercadorias com valor inferior: As empresas que exportam mercadorias como conchas, granulados de plástico ou feijão podem estar a utilizar as exportações para esconder partes de produtos ilícitos provenientes da fauna bravia, como o marfim.

Rotas sinuosas: Os carregamentos que seguem rotas indirectas ou ineficientes, incluindo paragens em múltiplos portos de trânsito, podem ser um sinal de que o navio está a tentar evitar ser rastreado.

Mudanças nas notas de desembarque: Uma nota de desembarque é um documento que acompanha um carregamento e que deve ser assinado pelo transportador, pelo expedidor e pelo receptor dos bens. No tráfico ilícito, várias alterações nas notas de desembarque podem ser usadas enquanto um contentor está de passagem. Isso pode incluir a mudança de proprietário antes de o contentor chegar ao seu destino. Também pode fazer com que o rastreamento seja mais difícil.

Grandes levantamentos: Levantamentos frequentes de dólares americanos das casas de câmbio pertencentes a chineses, particularmente aquelas que operam em lugares onde haja muito tráfico de produtos provenientes da fauna bravia, pode ser um sinal de comércio illegal.

 

 

 

 

 

quinta-feira, novembro 04, 2021

Ematum era inviável

 Um antigo administrador da Empresa Moçambicana de Atum (Ematum), uma das empresas públicas financiada pelas dívidas ocultas, disse hoje em tribunal que a atividade era inviável e não garantia receitas para o desembolso dos empréstimos.

"Na prática, as receitas foram muito reduzidas e nessa situação não era possível viabilizar o negócio", apesar de o estudo de viabilidade indicar o contrário, declarou Henrique Gamito. 

O antigo administrador da Ematum respondia na qualidade de declarante durante o julgamento do processo principal das dívidas ocultas, que decorre em Maputo.  A operação, prosseguiu, mostrava uma realidade menos otimista que os cenários apontados no estudo de viabilidade. 

Henrique Gamito disse que ele e outros administradores criticaram o estudo, mas não entrou em pormenores sobre as posições assumidas. O antigo administrador revelou que o antigo ministro das Finanças Manuel Chang lhe disse que as receitas seriam destinadas a atividades de segurança nacional, porque "havia complementaridade entre as três empresas criadas" para projetos marítimos com o dinheiro das dívidas ocultas - Ematum, Proindicus e Mozambique Asset Management (MAM).

Manuel Chang é alvo de processos judiciais em Moçambique e nos Estados Unidos da América (EUA) pelo seu papel na angariação dos empréstimos, esperando pela decisão da justiça sul-africana - onde foi detido em 2018 - sobre pedidos de extradição daqueles dois países.  Questionado pelo tribunal se os barcos da Ematum tinham equipamento específico para atividades de segurança, Henrique Gamito respondeu negativamente. 

"Não está no objeto da Ematum que tem de financiar a defesa", função que teve de ser "dissimulada", porque senão a empresa "teria dificuldades, se aparecesse claramente indicado que está ligada à defesa e segurança", afirmou. 

O antigo presidente da Ematum e arguido no caso das dívidas ocultas António Carlos do Rosário disse em tribunal que as embarcações da empresa eram usadas para a recolha de informação sobre atividades suspeitas na Zona Económica Exclusiva, além de se dedicarem à pesca. 

A justiça moçambicana considera que a Ematum e mais duas empresas -- a Proindicus e MAM -- foram usadas na angariação de dinheiro para alimentar um gigantesco esquema de corrupção.  A justiça moçambicana acusa 19 arguidos de se terem associado em "quadrilha" e delapidado o Estado moçambicano em 2,7 mil milhões de dólares (2,28 mil milhões de euros) - valor apontado pela procuradoria e superior aos 2,2 mil milhões de dólares até agora conhecidos no caso - angariados junto de bancos internacionais através de garantias prestadas pelo Governo entre 2013 e 2014. Os empréstimos foram secretamente avalizados pelo Governo, liderado pelo Presidente da República à época, Armando Guebuza, sem o conhecimento do parlamento e do Tribunal Administrativo.

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Financiamento britânico em tribunal

Moçambique deve parar a exploração de gás natural no norte do país e investir em energias renováveis, defende a organização ambientalista Friends of Earth, que vai a tribunal em Dezembro para bloquear o financiamento britânico ao projecto.

"Nós acreditamos que a transição deve ser para as energias renováveis. É aí que o Reino Unido deve colocar o seu apoio e dinheiro, garantindo que países como Moçambique dão o salto sobre o gás e vão directamente para as energias renováveis de forma a cumprir as metas ambientais", afirmou o activista Tony Bosworth à agência Lusa. 

O Governo britânico revelou no ano passado que iria contribuir com até 1,15 mil milhões de libras (1,36 mil milhões de euros no câmbio actual) para o projeto de gás natural liquefeito (GNL) do norte de Moçambique, através da agência UK Export Finance (UKEF).  A agência britânica é um dos financiadores do projecto liderado pela francesa Total Energies da província de Cabo Delgado o qual, devido aos ataques por rebeldes armados, está suspenso e só previsto começar a operar depois de 2016.  A organização Friends of Earth quer que este investimento seja declarado ilegal à luz dos compromissos feitos para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa previstos no Acordo de Paris e iniciou um processo de revisão judicial. 

As audições no Tribunal Superior [High Court] de Londres estão previstas para decorrer entre 07 e 09 de Dezembro, mas a decisão só deverá ser anunciada mais tarde.  Bosworth defende que o Reino Unido, enquanto país anfitrião da cimeira climática COP26, que decorre em Glasgow entre 31 de Outubro e 12 de Novembro, deve "mostrar ao mundo que está mesmo a levar a sério o combate às alterações climáticas e retirar o financiamento ao projecto de gás natural em Moçambique". A organização discorda do relatório produzido pelo Instituto Tony Blair, onde se alerta a comunidade internacional para as consequências de um cancelamento do financiamento a este tipo de projectos em países pouco desenvolvidos. 

Se países com rendimento elevado "limitarem as oportunidades de desenvolvimento, por exemplo, suspendendo o financiamento para energia gerada a partir do gás, sem fazerem provisões para alternativas igualmente acessíveis, correm o risco de condenar os países à contínua pobreza e insegurança alimentar", avisou o antigo primeiro-ministro britânico no documento "Uma Transição Justa para África: Defesa de um Caminho Justo e Próspero para Zero Emissões".  O economista Michael Jacobs, antigo assessor especial do ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown, mostra alguma consideração por este ponto de vista, lembrando que Moçambique emite actualmente muito pouco dióxido de carbono. 

"É realmente a responsabilidade dos países desenvolvidos, dos países mais ricos e das economias avançadas fazer o máximo [nas reduções de gases com efeitos de estufa]. E acho que é muito, muito difícil dizer a um país realmente pobre que simplesmente não deveria utilizar os recursos de que dispõe", disse à Lusa. Para este especialista britânico, Moçambique é um exemplo de um conflito que vai estar no centro das negociações sobre as alterações climáticas na COP26.  "As negociações internacionais sobre o clima são uma questão de justiça, sobre quem tem de fazer o esforço e quem tem a responsabilidade historicamente", resumiu. 

Leia Também: Moçambique. Perdão de 200 milhões da dívida do Credit Suisse insuficiente

 

 

 

segunda-feira, novembro 01, 2021

Ainda sobre os Mambas e Chiquinho Conde…

Diferentemente de alguns compatriotas, que acham que os Mambas devem parar de participar nas várias competições em que se acham envolvidos, eu julgo que devem, sim, continuar a participar. O que não devemos fazer é nos enganarmos a nós mesmos, como país, fazendo a mesma coisa e esperando resultados diferentes.

Sem prejuízo doutras ideias-solução devidamente estruturadas e consubstanciadas no necessário expertise, acho que devemos, antes de tudo, como país, pôr no papel, com a necessária visualização (chamamos-lhe projecto), o que queremos ser futebolisticamente em 10-15 anos, e, a partir dali, desenhar o perfil de um treinador profissional, que seja mais manager que mero técnico, para a efectivação.

Um projecto tal teria que ser integrado, associando vários escalões, e até com uma estratégia e plano de transição geracional. Por exemplo, não é preciso ser cientista de futebol para saber que em X-Y anos algumas das estrelas actuais dos Mambas arrumarão as botas. Já é possível ter-se uma ideia dos que podem lhes fazer a vez, ao mesmo tempo que já se pode trabalhar a sério na iniciação, para se colher alguns frutos em 5-7 anos, quais substitutos dos que neste momento estão, digamos, na forja.

Agora, exigir de Horácio Gonçalves que nos leve ao Mundial, num grupo com colossos como Costa do Marfim e Camarões, é o mesmo que esperar que a chuva caia de baixo para cima. 

Infelizmente, desconfio que Chiquinho Conde tenha caído na armadilha de “resultados imediatos”, daí ter um deliverable concreto, em dois anos, e devidamente contratualizado. E, não alcançando o tal resultado, o contrato se resolve como que automaticamente…

De como veio, Chiquinho Conde possuía um poder negocial que nenhum outro treinador teve nos últimos anos, mas…

Sendo certo que a qualificação ao CAN é mesmo complicada que ao Mundial, um eventual apuramento apenas nos ajudaria a continuarmos a nos enganar a nós mesmos.

E atenção: o problema aqui não é A, B, C ou N, mas todos nós como país. Claro que compete a poucos, devidamente identificados, coordenar sistemática e estruturadamente os processos!!! (E.S.)

 

 

 

 

 

 

 


segunda-feira, outubro 25, 2021

Elefantes sem presas

 

A caça furtiva de elefantes ao longo de décadas, devido à elevada procura mundial de marfim, alterou o processo evolutivo dos animais, originando espécimes sem presas, apontam investigadores. Segundo um estudo publicado esta quinta-feira na revista científica Science, uma rara mutação genética que causa o surgimento de elefantes sem marfim tornou-se comum entre certos grupos de elefantes africanos.

“O estudo demonstra que não se trata apenas de números, mas sim do impacto que o ser humano tem, pois estamos literalmente a alterar a anatomia dos animais”, afirma Robert Pringle, investigador da Universidade de Princeton, que liderou o estudo citado pelo jornal The Guardian.


“Estamos intrigados pelo facto de grande parte dos elefantes fêmeas não terem dentes de marfim […] ninguém percebia o porquê”, aponta Robert Pringle. “Ninguém tinha realmente documentado ou quantificado o fenómeno, nem identificado uma causa.”

Uma das justificações para esta situação é uma aparente mutação genética nos genes masculinos, originando fêmeas sem marfim. Assim, cerca de metade dos elefantes nascidos de mães sem dentes deste material, apresentam esta alteração no código genético.

Segundo o estudo, a mutação genética poder-se-á ter tornado mais comum durante a guerra civil moçambicana, entre 1977 e 1992, uma vez que os elefantes eram um alvo constante dos forças armadas (de ambos os lados), que procediam à caça furtiva destes, visando vender o marfim e financiando assim o conflito.    O estudo do departamento de ecologia e biologia evolutiva de Princeton apontou ainda que com a procura em massa que resultou desta guerra, “a população de elefantes africanos no Parque Nacional da Gorongosa reduziu 90%”.  Isto contribuiu para que os elefantes que nascessem sem dentes de marfim não fossem abatidos, originando uma população geneticamente alterada bastante mais elevada.   O investigador de Princeton espera que com a diminuição da caça furtiva esta tendência se reverta: “Prevemos que este síndrome diminua em frequência na nossa amostra populacional, desde que os mecanismos de conservação da espécie se mantenham”.

 

segunda-feira, outubro 11, 2021

Nhongo,apagou-se


Foi na manhã desta segunda feira, no distrito de Muanza,em Sofala, Mariano Nhongo teria atacado a comitiva da polícia em Muanza.

Mariano Nhongo Chissingue nasceu a 13 de Abril de 1970 em Chemba, na província de Sofala e integrou a Renamo em 1981, na qual se tornou num dos mais relevantes oficiais do braço armado do partido durante a presidência de Afonso Dhlakama

Com apenas 11 anos (!981), Nhongo foi capturado pelos antigos combatentes da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) para ser treinado para combater visto que nessa altura a guerra civil moçambicana estava desenrolando em Moçambique.

Meses depôs da sua captura, Nhongo era um dos melhores soldados da RENAMO. A sua juventude foi caracterizada por sofrimento em plena guerra combatendo contra as forças de defesa de Moçambique em defesa da tão sonhada democracia em Moçambique.

Foi durante a guerra civil que Mariano Nhongo se tornou Tenente General da Renamo. Quando em 1992 se assina o Acordo Geral de paz e governo tomou medidas para desmobilizar os homens armados da Renamo junto com a ONUMOZ, Nhongo continuou exercendo sua carreira de Tenente e guarda do falecido ícone e primeiro presidente da Renamo Afonso Dhakama.

ERA considerado por muitos moçambicanos um dos melhores combate-fuzileiro da Renamo e até que conseguiu evitar que Afonso Dhakama tombasse em muitas das emboscadas provavelmente organizadas pelos seus oponentes da Frelimo tal como o caso da emboscada de Zimpinga em Setembro de 2015 .

Nhongo se tornou soldado com apenas 11 anos. Desde a sua formação participou em todas guerras em Moçambique (excepto a guerra de libertação nacional). De realçar que, Nhongo integrou a Equipa Militar de Observadores Internacionais na Cessação de Hostilidades Militares em 2014 e dirigiu a equipa responsável pela segurança do seu então líder Afonso Dhlakama e  encontraVA-se nas matas combatendo contrariando o presidente do seu partido Ossufo Mohamade,tendo causado a morte de civis e destruição de infraestruturas na região centro do País.

 

3 P

Primeiro padre, primeiro bispo e primeiro cardeal nativo de Moçambique. É assim como o papa Francisco define o arcebispo emérito Alexandre dos Santos, que morreu no último dia 29, aos 103 anos, em Maputo, vítima de doença. Os restos mortais de Alexandre dos Santos foram depositados, esta quinta-feira, na Sé Catedral de Maputo, na presença do Presidente da República, Filipe Nyusi, e outras figuras do Estado, constitucionalmente laico.

Num país que tem sido pontuado por fracturas permanentes, a morte do arcebispo emérito mereceu um dos raríssimos momentos de unanimidade na sociedade moçambicana. Partidos políticos, confissões religiosas, instituições de ensino e sociedade civil convergiram no elogio ao eclesiástico católico, homem de causas que transcendem o universo religioso, como a paz social, a educação e busca de bem- -estar geral. Relação difícil com o Estado Alexandre dos Santos, à frente da igreja católica de Moçambique, viveu todo o período conturbado das relações inquinadas entre o Vaticano e o Governo, após a independência do país em 1975. Nesse período, muitos padres católicos e missionários foram expulsos de Moçambique e grande parte dos bens da igreja católica, incluindo escolas e hospitais, foram nacionalizados. Para a normalização das relações, foi negociada a devolução de parte dos bens, situação extensa a outras confissões religiosas. Moçambique, como Estado laico, denunciou também o acordo da Concordata, estabelecido antes da independência entre o governo português e a Santa Sé.

Num telegrama que enviou ao actual arcebispo de Maputo, Francisco Chimoio, o papa Francisco exprime a sua dor pela morte do cardeal e sua solidariedade aos “familiares em luto e a quantos, sobretudo nessa arquidiocese de Maputo, se beneficiaram do serviço deste pastor”. 

O chefe da igreja católica descreve o falecido arcebispo emérito de Maputo como “um servidor incansável do evangelho e da igreja”. Homenageado pela Frelimo O Presidente Filipe Nyusi lamentou a morte de Alexandre dos Santos, lembrando “o seu humanismo, alto sentido de ética e cidadania”. Nyusi, também ele católico, considerou Dom Alexandre como “um combatente do mundo e para o mundo, que apostou na educação dos cidadãos como um meio de promoção da igualdade, fraternidade entre os homens”. Para Filipe Nyusi, Moçambique perdeu um dos seus “melhores filhos”, um religioso que se destacou pelo seu “empenho para o bem da humanidade, independentemente da posição social, raça, ou outras formas de distinção”. “Encarnou um elevado sentimento patriótico ao aderir ao processo de pacificação de Moçambique”, acrescentou Filipe Nyusi. Também a Frelimo e Renamo lamentaram a morte de Alexandre dos Santos. “A Frelimo inclina-se perante o seu corpo inerte, Moçambique perdeu um dos seus melhores filhos”, referiu o comunicado do partido no poder. Além da Frelimo, a Renamo, principal partido de oposição, manifestou também as suas condolências.

“Dom Alexandre José Maria dos Santos foi um clérigo notável na evangelização e na construção de uma sociedade mais justa e humanizada”, frisou a Renamo. Alexandre dos Santos foi o primeiro moçambicano negro a ser ordenado padre, em 1953, quando o país ainda estava sob domínio colonial português. Chegou ao cargo de arcebispo de Maputo em Dezembro de 1974, numa altura em que o Vaticano estava em pânico com a chegada da independência e precisava de, estrategicamente, colorir a hierarquia católica local. Nesta altura, os portugueses estavam em debandada, após uma aparente narrativa incendiária da Frelimo. O discurso oficial denunciava a igreja católica como instrumento ao serviço do colonialismo português.

Em 2003 foi nomeado cardeal pelo Papa João Paulo II. Em Setembro de 1988, já como cardeal, Alexandre dos Santos recebeu João Paulo II em visita pastoral a Moçambique. Figura de consensos na igreja católica em Moçambique, Alexandre dos Santos, visto como próximo da Frelimo, por oposição ao sentido crítico sempre expresso pelo bispo da Beira, Jaime Gonçalves, participou também na mediação das negociações que culminaram com a assinatura do Acordo Geral de Paz entre o Governo e a Renamo, em 1992. Alexandre dos Santos era um entusiasta da educação e formação, tendo dinamizado a criação da Universidade São Tomás de Moçambique (USTM). Um chope entre os Franciscanos Alexandre José Maria dos Santos nasceu em Zavala, na Diocese de Inhambane, a 18 de Março de 1924. Concluiu os primeiros estudos na escola dos missionários Franciscanos. Depois de frequentar o seminário menor franciscano de Amatongas, em Manica, foi enviado para Nyassaland - actual Malawi - para fazer o curso de filosofia com os Padres Brancos (Missionários da África), pois naquela época, ainda não existia seminário maior em Moçambique. Em 1947 entrou no noviciado da Província Franciscana Portuguesa de Varatojo, perto de Lisboa. Frequentou o curso de Teologia em Lisboa.

 Ali foi ordenado sacerdote a 25 de Junho de 1953. Regressado à sua terra natal em 1954, foi trabalhar nas missões franciscanas na região de Inhambane. Em 1972 tornou-se Conselheiro da Custódia Franciscana de Moçambique e Reitor do novo Seminário Menor do país em Vila Pery, hoje Chimoio.   Foi nomeado, pelo papa Paulo VI, arcebispo de Maputo em 23 de Dezembro 1974, tendo sido sagrado bispo a 9 de Março do ano seguinte, antes da independência de Moçambique, ocorrida a 25 de Junho de 1975. Dom Alexandre fundou a Caritas de Moçambique e foi o seu primeiro presidente. Em 1981 fundou a Pia União das Mulheres com o nome de Franciscanas de Nossa Senhora Mãe de África, um instituto religioso que tem por objectivo difundir o catolicismo e as actividades assistenciais desta confissão religiosa, mormente junto das comunidades pobres.

quinta-feira, outubro 07, 2021

Big Five

O Parque Nacional da Gorongosa, na província de Sofala, centro de Moçambique, vai concluir este mês a elaboração do plano de maneio para a reintrodução de rinocerontes, chitas e leopardos, espécies desaparecidas naquele espaço devido à caça furtiva. Com o regresso dos animais em causa, a área de conservação passará a fazer parte da lista das instâncias turísticas mundiais com os chamados “cinco grandes” mamíferos selvagens de grande porte (Big Five), compostos por leão, leopardo, rinoceronte, búfalo e elefante.

Segundo o administrador do Parque Nacional da Gorongosa, Pedro Muagura, a primeira fase de translocação está prevista para Dezembro próximo, com a chegada de leopardos. Citado pela Rádio Moçambique, Muagura disse que o plano de maneio da área de conservação apresenta várias estratégias para a protecção da vida selvagem com destaque para o reforço da fiscalização.

O Parque Nacional da Gorongosa é uma área de conservação situada na zona limite sul do Grande Vale do Rift Africano, no coração da zona centro de Moçambique. Fica a 170 quilómetros a norte da cidade da Beira, capital da província de Sofala. O Parque, com um pouco mais de 4000 quilómetros quadrados, inclui o vale e parte dos planaltos circundantes. Os rios que nascem na vizinha Serra da Gorongosa, que atinge os 1.863 metros de altura, irrigam a planície.

As cheias e inundações sazonais do vale, que é constituído por um mosaico de diferentes tipos de solo, criam uma diversidade de ecossistemas distintos. A serra contém uma das mais densas populações de vida selvagem de África. Dados disponíveis indicam a existência no Parque de cerca de 70 mil animais.

Os passageiros botão e sabão

Uma tentativa de exportação de heroína para o Canadá, disfarçada em 270 botões, foi abortada esta quarta-feira (06) no Aeroporto Internacional de Mavalane, na cidade de Maputo, capital de Moçambique. A tentativa foi desbaratada pela equipa de controlo de mercadorias da Autoridade Tributária de Moçambique (AT), que opera no aeroporto, indica uma nota recebida pelo “Notícias”.

O documento refere que, a droga seguia disfarçada em botões cobertos de capulana, e estava em processo de envio através do serviço de correio para uma cidadã que responde por Jacqueline Brenda, residente no Canadá. Para o efeito, a AT desconfiou do volume em que seguia a referida droga e solicitou exames ao Serviço Nacional de Investigação Criminal, que veio a provar tratar-se de heroína. Neste momento, decorrem diligências para o esclarecimento do caso, bem como para a responsabilização dos seus autores. No mês passado a mesma entidade abortou a entrada de droga, disfarçada em rebuçados e chocolates, de origem brasileira, através do Aeroporto Internacional de Mavalane. 

A Polícia Federal do Brasil apreendeu na noite de terça-feira cinco toneladas de cocaína que estavam escondidas num carregamento de sabão em pó que seria embarcado num navio para Moçambique, uma apreensão recorde, relataram fontes oficiais.A apreensão ocorreu no âmbito da operação “Missão Redentor”, e, segundo a Polícia Federal brasileira, tratou-se da maior apreensão de cocaína da história no Estado do Rio de Janeiro.

“Após denúncia, foram realizadas diligências, iniciadas na manhã desta terça-feira, pelos polícias federais e a Missão Redentor. Com o apoio de cães farejadores, foram localizadas cerca de 4,3 toneladas de droga acondicionado em caixas de sabão em pó, no interior de um contentor”, informaram as autoridades brasileira num comunicado.Quando já estavam a retirar a droga, os cães farejadores alertaram sobre substâncias suspeitas num outro contentor, no qual foram encontrados outros 700 quilos de cocaína também escondidos dentro de caixas de sabão em pó. “Os responsáveis pela carga fizeram um trabalho muito sofisticado. Colocaram a cocaína dentro das caixas de sabão com peso idêntico ao declarado nos documentos de embarque pelo exportador”, disse o chefe da Divisão de Repressão ao Contrabando Aduaneiro, Augusto da Rocha, em declarações à imprensa.Na sequência da apreensão, todo a droga foi encaminhada para Superintendência Regional da Polícia Federal no Rio de Janeiro, para formalização da apreensão. “Pelo custo da logística, esta é uma organização criminosa altamente estruturada, mas teve um prejuízo enorme, já que é a maior apreensão de cocaína feita na história do Estado do Rio de Janeiro”, disse o delegado e vice-chefe da Comissão de Repressão aos Entorpecentes, Bruno Tavares.

Apesar de a polícia ainda não ter identificado os donos da carga e nem apurado se a droga foi introduzida pelos próprios exportadores ou sem o seu conhecimento, os agentes da Polícia Federal prenderam dois suspeitos encontrados no porto. No veículo em que estavam os dois suspeitos, as autoridades encontraram mais 270 quilos de cocaína, pelo que as autoridades acreditam que os detidos fossem os responsáveis pela introdução da droga nos contentores e que pretendiam esconder a restante carga.

Falta o acordo de paz com...

Falta o acordo de paz com os expropriados da terra e os assassinados pelos acordos com as multinacionais dos combustíveis fósseis, das pedras preciosas, das plantações; falta o acordo de paz com trabalhadores sem emprego ou em condições precárias de trabalho, com os informais, com os abandonados à sua sorte na actual pandemia, com os que vivem de segurança social miserabilista ou sem qualquer segurança social; falta o acordo de paz com os trabalhadores da educação e da saúde, com a educação e a saúde, com os estudantes e com os doentes, com a ciência ao serviço da sociedade; falta o acordo de paz com os deslocados de guerra e com as famílias dos assassinados de todos os lados; falta o acordo de paz com os moçambicanos que estão a pagar dívidas ilícitas, que viram a idoneidade e a integridade da moçambicanidade postas em causa e que perderam a soberania sobre partes do território e sobre os recursos, a economia e a política;

falta o acordo de paz com homens ambulantes e desprezados, com velhos abandonados, com mulheres violentadas, com jovens carne para canhão, com os cidadãos transportados como sacos, com crianças que crescem na poeira destes desastres sociais; falta o acordo de paz com a verdade, a idoneidade, a integridade, a igualdade social, o respeito pelas diferenças humanas, a substituição da tolerância pelo ideal de igualdade, a liberdade de ser quem se é e de ser, de pensar e de expressar diferente; falta o acordo de paz com a solidariedade e o internacionalismo; falta o acordo de paz com a natureza; falta o acordo de paz com a história; faltam quase todos os acordos de paz importantes.

Estes acordos de paz talvez pudessem eliminar as condições estruturais que criam a política armada, desactivar o terror e a violência sistémicas como formas de exercício do poder, evitar a guerra e o terrorismo como formas principais de política activa, e evitar ter de assinar contínuos acordos de paz com os revoltados e rebeldes armados, ou com terroristas e assassinos.

São acordos de paz na luta de classes. O problema é que não podem existir, os acordos de paz, sem que as tensões e contradições nas relações de produção e de poder sejam resolvidas.

(Por C Nuno C-B in facebook)


segunda-feira, setembro 27, 2021

Covid derrotado nas últimas 24 horas

Moçambique registou 36 novas infeções por Covid-19 nas últimas 24 horas, dos quais três são de cidadãos estrangeiros. Segundo o boletim do Ministério da Saúde (MISAU), sobre a evolução da pandemia, nas últimas 24 horas, “não notificou nenhum óbito em paciente infectado pelo novo coronavírus, continuando o país com um cumulativo de 1.909 vítimas mortais devido à Covid-19”. Deste número 26 são do sexo masculino, correspondente a 72,2 por cento e 10 do sexo feminino, que representam 27,2 por cento. Todos os novos casos resultam de transmissão local.

A província de Manica registou 13 casos, correspondentes a 36,1 por cento do total dos casos novos hoje reportados em todo o país e uma taxa de positividade de 32,5 por cento, seguida pela província de Gaza com cinco casos, o equivalente a 13,9 por cento do total de casos e uma taxa de positividade de 6,3 por cento. A nível nacional, a Taxa de Positividade nas últimas 24h foi de 5,2 porcento, enquanto a Taxa de Positividade Acumulada é de 16,7 por cento. Assim, Moçambique tem cumulativamente 150.530 casos positivos registados, dos quais 150.161 casos são de transmissão local e 369 são casos importados.

Nas últimas 24 horas as autoridades registaram uma alta hospitalar e nenhum novo internamento.

“Assim, o país continua com um cumulativo de 6.955 pacientes internados, dos quais 38 estão actualmente nos Centros de Internamento de Covid-19 e em outras Unidades Hospitalares 46,7 por cento destes pacientes encontram-se na cidade de Maputo. Neste momento, o país tem 2.073 casos activos.

Num outro desenvolvimento, o MISAU recorda que segunda-feira da semana corrente retomam as actividades efectivas do Ensino Pré-Escolar (creches). A retoma surge no âmbito do relaxamento das medidas restritivas impostas para conter a propagação do novo coronavírus. Assim, o MISAU exorta aos pais/encarregados de educação e professores a continuarem a desempenhar o papel de verdadeiros agentes promotores de saúde, ensinando os seus educandos e alunos, respectivamente, a respeitarem as medidas gerais de prevenção da Covid-19, particularmente o uso correcto da máscara no interior da sala de aulas e em contacto com os colegas e evitar partilhar material escolar ou lanche com os colegas.

Em momento certo, e não em dúvida

O Presidente da República, Filipe Nyusi, considera que o apoio que Moçambique tem estado a receber dos parceiros no combate ao terrorismo também tem o condão de capacitar as Forças de Defesa e Segurança (FDS).

“Neste momento que recebemos apoio, estamos, em simultâneo, a capacitar as Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) para poderem fazer face as fases posteriores de combate ao terrorismo”, disse Nyusi, falando sábado, na cidade de Pemba, em conferência de imprensa alusiva a celebração do Dia das FADM, que se assinala a 25 de Setembro em todo o território nacional. Nyusi, que falava em conferência conjunta com o seu homólogo ruandês, Paul Kagame, afirmou que “se a casa do vizinho estiver a arder juntos podemos extinguir o fogo e criar condições para que não haja mais fogo, no futuro”. O estadista moçambicano estabeleceu um paralelismo entre a progressão do terrorismo e do novo coronavírus. “Muda de forma. Acredito que o terrorismo comporta-se desta maneira”. Questionado sobre os desafios que o país enfrenta no combate ao terrorismo, Nyusi respondeu que “em Moçambique nunca tínhamos estado perante uma guerra contra o terrorismo. É um fenómeno novo, para nós”.

 Sobre a intervenção das forças ruandesas no combate ao terrorismo em Cabo Delgado, Nyusi respondeu surge a pedido de Moçambique.

“Eu, pessoalmente, em muitas ocasiões, interagi com o Presidente Kagame e outros estadistas. Com base em experiência, prontidão, e relacionamento, achamos que estávamos prontos para trabalhar com Ruanda”, disse Nyusi, ajuntando que “Ruanda já teve missões similares em diferentes momentos”. Ademais, disse Nyusi, os dois países atravessam uma fase de relacionamento óptimo, no âmbito do desenvolvimento, no geral. “As interacções que temos tido ao longo dos tempos ajudaram que houvesse prontidão do Ruanda para ajudar Moçambique. Não precisamos de meninos de recados. Falamos directamente. É o que fizemos”, referiu Filipe Nyusi.

Kagame, por seu turno, assegurou que “vamos combater o terrorismo, ao mesmo tempo capacitando as FDS”. Afirmou há pessoas que pensam que o Ruanda teria sido convidado pela multinacional francesa, Total, ou pela França a intervir em Moçambique. “Na verdade, eles são nossos amigos, mas o problema é de Moçambique. É um desafio de Moçambique. Desafio que Moçambique está a enfrentar. Por isso, foram os moçambicanos que nos convidaram, e vamos continuar a trabalhar juntos”.

“O Ruanda está a fazer a sua modesta contribuição”, acrescentou. Questionado sobre a demora para pedir a intervenção estrangeira para combater os terroristas, Nyusi que afirmar que foi “muito tempo”, é subjectivo. Nyusi explicou que o primeiro ataque ocorreu em 2017, numa altura em que “já liamos sinais, a partir de 2012, sinais estranhos no nosso país, sobretudo na zona de Mocímboa da Praia, e nessa altura já havia prospecção de recursos naturais”.

“Isso exigiu, da nossa parte, uma ponderação e inteligência para perceber o fenómeno”, disse Nyusi, explicando que queria evitar a presença de muitos países em território nacional sem saber exactamente o seu papel em Moçambique. 

“Se nesse momento tivéssemos dito venha o Zimbabwe, Egipto, França, … poderíamos cair numa situação de dizer venham sem sabermos o que esses países viriam fazer”, disse.

Alem disso, disse o estadista moçambicano, chegou-se a acreditar que o problema poderia ser resolvido dentro do país, usando o diálogo. “Estávamos a tentar perceber se a nossa arma ainda funcionava, o diálogo”. Por isso, disse Nyusi, não basta ajuda. Os países precisam de perceber para onde vão, o que vão fazer, e o que é preciso fazer, e isso leva tempo”, explicou Nyusi. Assim, o pedido de ajuda não ocorreu tardiamente. “Foi uma decisão oportuna. Tínhamos que tomar a medida em um momento certo, e não em momento de dúvida. Senão estaríamos a cometer um erro fatal”.