quarta-feira, julho 08, 2020

Uma "peste" chata


O caso suspeito de peste negra detetado na região autónoma da Mongólia Interior já foi confirmado pela China, elevando o alerta no país, avançou a BBC esta terça-feira( 6 Julho)  ao mesmo tempo que avança com a possibilidade de uma jovem de 15 anos também estar infetada. O pastor doente foi internado num hospital em Bayannur, não sendo conhecida a forma como terá apanhado a peste. Está atualmente estável e em quarentena.
Já a rapariga que poderá também ter apanhado esta peste,  terá estado em contacto com uma marmota caçada por um cão, segundo confirmou o China Global Times.
Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral | ivairsEm entrevista à Rádio Observador, Jaime Nina, professor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, diz que “todos os anos há milhares de casos de peste bubónica” e não há caso para alarme a nível mundial, lembrando que existem antibióticos.
“A China tem alguns casos, mas o principal foco atualmente é em África, na ilha de Madagáscar, que nos últimos 20 anos tem tido entre metade a dois terços dos casos no mundo”, explicou ainda o infecciologista. Há ainda outros dois casos a registar: dois irmãos que foram hospitalizados na semana passada com a doença após terem comido também carne de marmota. É que mamíferos de pequeno porte, como este, carregam muitas vezes pulgas infetadas com a bactéria Yersinia pestis, que causa a peste bubónica e pneumónica.

O que é Peste negra?
A peste é uma infecção bacteriana grave transmitida pela bactéria Yersinia pestis, presente em todos os continentes do mundo menos na Oceania. Humanos adquirem a doença quando são mordidos por uma pulga infectada ou entram em contato com material infectado, por exemplo muco. Existem três formas de infecção pela peste negra, dependendo da rota que a bactéria faz: bubônica, septicêmica e pneumônica. A peste bubônica afeta as glândulas linfáticas, causando inchaço e inflamação nessas áreas. A peste septicêmica ocorre quando a infecção se espalha para o sistema circulatório, ou seja, para o sangue. No geral ela ocorre como uma complicação da peste bubônica, uma vez que a bactéria pode sair do sistema linfático e atingir o sangue.

Se a bactéria atinge os pulmões, no geral pelo sangue, o paciente desenvolve peste pneumônica, que é transmitida de pessoa para pessoa por meio de objetos infectados com muco ou pelo ar. Os sintomas iniciais de peste bubônica aparecem 7-10 dias após a infecção. O diagnóstico precoce permite que a peste negra seja curada com antibióticos. Se não for tratada rapidamente, a peste negra pode ser fatal. Durante a época medieval, estima-se que a peste negra matou 50 milhões de pessoas. Hoje a praga ocorre em menos de 5.000 pessoas por ano em todo o mundo. 
Mapa del Perú (map of Peru) | Douglas Fernandes | Flickr 
Epidemias de peste negra já ocorreram na África, Ásia e América do Sul. Mas, desde a década de 1990 a maioria dos novos casos ocorreu no continente africano. Em 2013 foram registrados 783 casos em todo mundo, incluindo 126 mortes. Os três países mais endêmicos são Madagascar, República Democrática do Congo e Peru.

Causas
Peste negra é uma doença causada pela bacteria Yersinia pestis, que afeta primariamente roedores. Ela é transmitida de um roedor a outro por meio de pulgas, que ao morderem o roedor passam a carregar a bactéria. Humanos adquirem a doença quando são mordidos por uma pulga infectada.

Sintomas de Peste negra
Pessoas infectadas com peste negra geralmente desenvolvem sintomas parecidos com os da gripe após um período de incubação de 3-7 dias. Sinais típicos incluem:
Febre alta (39°C)
Calafrios
Dores no corpo
Fraqueza
Náusea e vômitos

segunda-feira, julho 06, 2020

Desencontros descentralizados


O ano 2020 constitui um marco importante no processo democrático moçambicano. Com o advento dos entendimentos políticos – partidário e militares, a Constituição da República conheceu uma revisão pontual, em 2019, para a acomodação de interesses políticos, como forma de evitar confrontos militares constantes entre a Renamo e o governo da Frelimo.
PPT - República de Moçambique Governo da Província de Nampula ...
Em consequência desses acordos, na sua maioria vistos como “acordos de cavalheiros”, foi introduzido um novo modelo de governação, que trouxe, como resultado, ao nível das províncias, entidades e instituições com atribuições similares. Na implementação da lei de descentralização, a impressão que fica é da duplicação de instituições e respectivos dirigentes, sendo que uns de nomeação de nível provincial (menos poderosos) e outros com ligações ao poder central, actuando como os “manda chuvas” e sem uma linha de orientação e prestação de contas clara. Todos eles reclamam pela promoção do crescimento e desenvolvimento económicos, bem como a satisfação dos problemas que apoquentam a qualidade de vida dos residentes locais.
Na província de Nampula, a mais populosa do país, e uma das mais pobres, está claro que a convivência entre estes dois poderes não está sendo algo fácil. Sem muito esforço, nota-se um certo desencontro nas agendas políticas e de governação, entre o governador Manuel Rodrigues (eleito) e o Secretário de Estado, Mety Gondola (nomeado pelo Presidente da República).   Volvidos perto de cinco meses que ambos comandam o maior círculo eleitoral do país, o Ikweli decidiu trazer uma análise do desalinhamento e desentendimento entre estas duas individualidades. O nosso ponto de comparação são as intervenções de Manuel Rodrigues e Mety Gondola na última reunião do Conselho Operativo de Emergência, realizada, recentemente na cidade de Nampula, depois de que, de forma recorrente, fomos anotando os desencontros e tratamento diferenciado no seio do sector público.

O governador, eleito pela lista da Frelimo, em 2019, parece deslocado dos acontecimentos de coordenação inter-institucional que ocorrem na província onde dirige.
O PAÍSNa referida reunião do Conselho Operativo de Emergência (COE), Manuel Rodrigues interveio demonstrando-se desactualizada quanto a participação de outros actores de desenvolvimento nos problemas da província.
“A quando da apresentação, nós nos referimos da UNICEF, e não tenho alguma objecção a esta referência, mas gostaria, realmente, que os outros parceiros entrassem, também, neste desafio. O que sinto é que parece que estamos a abraçar a UNICEF, e não sei os encontros que nós temos que realizar se com os parceiros que aqui estão presentes, se podemos juntar esforços para que nos relatórios não apareça só UNICEF”, disse o governante no momento da sua intervenção, para depois avançar que “esse é o gosto de termos esta coordenação de esforço que a sua excelência senhor ministro da Saúde estava a referir, a questão de coordenação, a questão de junção de recursos, que são escassos. Então, queria aqui, realmente, provocar e ouvir os parceiros sobre o que devemos fazer para nos juntarmos a este movimento, sobretudo a questão de abastecimento de água porque só ouvi que é a UNICEF que está aí, como se na província de facto tivéssemos só a UNICEF”.

O Secretário de Estado (SdE), Mety Gondola, nomeado pelo Filipe Nyusi para “dublar” os seus interesses em Nampula, veio discordar, a seguir, com o que acabara de ouvir do governador Manuel Rodrigues.
Arquivo de Mety Gondola - Jornal Ikweli
“Queria retomar, se calhar, pegando a última intervenção, que os nossos parceiros estão a trabalhar connosco. Não é novidade que este ano, praticamente estamos a funcionar com bastante exiguidade de recursos, e grande parte de intervenção que estamos a ter é mesmo dos apoios dos nossos parceiros, e nós estamos bastante grato com este apoio que nos têm dado”, clarificou o dirigente, para depois reconhecer que “eventualmente, pode surgir aqui, a necessidade de trazermos como decisão do órgão, uma informação a parte, e para além disso, se corporiza a totalidade dos apoios que nós temos e fornecemos. Portanto, o grande problema disso é o detalhe, mas queria mesmo retomar neste ponto, dizer que temos estado a trabalhar com os parceiros, a título de exemplo é que na liderança dos clusters (grupos) nós temos alguém do governo, mas sempre, também, parte dessa liderança temos os nossos parceiros lá enquadrados”, e justificar que “eventualmente porque, se calhar os outros clusters terão referido a menção especificamente da UNICEF, mas do nosso lado temos que assumir e dar a mão a palmatória se tivermos induzido uma má percepção em relação a esta questão, mas não gostaríamos de sair daqui com a percepção de que os nossos parceiros, de alguma forma, estejam ausentes do trabalho connosco, estão sempre presentes, têm sido bastantes colaborativos e têm estado bastante engajados na implementação daquilo que nós concordamos”.
“Aliás, foi decisão deste mesmo comité, foi decisão nossa de que os apoios todos deveriam ser centralizados de forma a não criar, de alguma forma, dispersão que seja”, precisou ainda o SdE Mety Gondola, para depois concluir que “excelência, temos estado a interagir de alguma forma com os nossos parceiros e, com alguma felicidade, vale a pena dar como referência que são vários os nossos parceiros que estão a actuar nos distritos, e nós temos recebido informação daquilo que vai acontecendo nos distritos”. 

Aterragens suaves, em pistas mais curtas


O comandante Carlos Soares, Mwani assumido, profissional arrojado e cidadão para todas às ocasiões, parou de pintar os céus com o seu fascínio. Para trás, ficam anos de empenho e entrega a causa dos ares, da segurança aérea e do compromisso para com os passageiros. Quis o destino que uma enfermidade colocasse uma vírgula nessa longa e irrepreensível carreira de aviação civil.
Algumas línguas tornaram convencional um provérbio conhecido. A vida é como um livro. Cada dia uma nova página e, a cada hora, uma nova Vírgula. Nem lápis pode escrever o futuro e, nenhuma borracha pode apagar o passado. Mas, chega sempre um momento em que Deus nos retira o lápis e escreve Fim. Se o papel continuar na mesa, cockpit, Cdte. Carlos Soares, ainda, poderá escrever outras e novas páginas para a Aviaçao nacional, paixão que abraçou, ainda jovem e, se consagrou como dos mais seguros e reconhecidos pilotos do país e da sua querida terra natal.

N855AM (C9-BAQ) • LAM (Linhas Aéreas de Moçambique) • Boei… | FlickrHoje, ainda no limiar do mês de Julho, coincidência ou não, quando, também, nasceu Amélia Earhart, a primeira mulher piloto do mundo, (1897-1937) Carlos Soares conheceu a luz do mundo, franzino e de poucas falas, e, jurou fazer dos ares a sua casa e marca. Em Julho nascem guerreiros e, nele, se constroem as vitórias e se fortificam mais dotados. Cdte Soares faz parte desse naipe.
Entre Pemba e Nampula se criou uma ponte. Todos os devaneios. Soares se juntou a TTA, fez pulverização, amadureceu e entrou, por mérito, para a LAM. Amadurecido e determinado, se fez e provou ao mundo o seu querer e determinação. Rescrever a história da segurança aérea, suavizar os passageiros menos viajados e iluminado mentes de várias gerações.
Cdte Soares deve ter sido o primeiro e, talvez, dos poucos, que fazia os discursos em quatro línguas. Francês, inglês, português e Swahili, sempre que precisava de informar aos passageiros sobre as coordenadas dos percursos. Aqui, no Swahili, residia o encanto e o prazer de ter uma língua nacional falada a 33.000 pés. Isso lhe valeu alcunhas e elogios. Admiradores e fanáticos.
Mas, era a suavidade das suas aterragens, em pistas mais curtas como Pemba e Lichinga, onde colocava a perícia e habilidade. Quem o conheceu fará referência a mestria. Fazia destes lugares pequenos tapetes. Era o Leonardo da Vinci do norte.
A história da aviação no mundo e em Moçambique, será sempre complexa. Ou não será que o desejo de voar esteve sempre presente na história da humanidade. Para Moçambique, voar ainda parece um sonho realizável, sobretudo, quando alguém nos paga à passagem. Muitos dos passageiros ainda acreditam que os aviadores são dotados de poderes divinos, ou ainda, em alguns momentos, eles foram carregados ao ar por animais voadores. Mas, aviação continua sendo velocidade, coração nas mãos, facilidade de manobra, segurança, capacidade de carga e sobretudo de emprestar o sonho da alegria as crianças e aos passageiros de primeira jornada. Soares os conhece bem e, em sua língua materna, ele soube prolongar esses mitos.
Só mentes brilhantes tatuam seus caminhos em noites de lua cheia. Comandante Carlos Soares deixou-se transportar para tantos ares e pistas. Procurou, em todas as asas e ases da história da aviação civil moçambicana o sentido do desafio, o melhor para engrandecer uma marca e a mocambicanidade que ainda iluminam os céus, a vida e os corações de todos que querem fazer deste país, um lugar melhor .
De repente, como que exorcizando identidades aereas, nos sentimos possuídos por vontades e harmonias sincronizadas, revelando as essências do nosso tempo e de tantos voos e peripécias.
Até parece que fomos o impelidos para nos retratarmos, refazendo lembranças espaciais, percursos e rotas dos tempos.
Hoje, nesta celebração, revemos tantas histórias e facetas de um profissional e Pai que assiste o país e o filme dos céus, sentado na sua poltrona feita plateia. Dos passageiros e amigos ficam nestas letras rabiscadas a lápis, um reconhecimento profundo e, a certeza de que nenhuma vírgula travará seu talento.
Entrincheirados, nesta quarentena coronária, resgatamos valores de utopias distanciadas. O mundo já não quer saber de nós e, prescinde dos nossos afectos. Parabéns Cdte Carlos Soares. Muita saúde e resguarde-se! O país saberá fazer-lhe o devido tributo.(X).

Jorge Ferrão , Julho, 2020.